Com termos
duros, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) enviou uma carta ao gabinete de
Dilma Rousseff na qual afirma que sempre teve "ciência da absoluta
desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB". Ele
diz que passou os primeiros quatros anos de governo como "vice
decorativo".
Temer começa
dizendo que a palavra voa, mas o escrito fica. Por isso, diz, preferiu
escrever. Avisa então que está fazendo um "desabafo" que deveria ter
feito "há muito tempo". Na avaliação de amigos do vice, a carta
representa o rompimento com a presidente Dilma, apesar de o peemedebista não
querer dar esta conotação ao documento.
O
peemedebista demonstra profundo incômodo com declarações e ações de Dilma, de
seu governo e de seus aliados sobre a "confiança" que devotam a ele.
"Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade
da minha lealdade", escreve. "Tenho-a revelado ao longo destes cinco
anos."
O vice ainda
elenca 11 fatos que, segundo ele, demonstram o desprezo por ele e pelo PMDB,
que "jamais" eram chamados para formulações econômicas ou políticas.
"Éramos meros acessórios, secundários, subsidiários". Quando
fala em "vice decorativo", Temer diz que perdeu "todo
protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo
governo". "Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as
crises políticas". Ele lembra, por exemplo, que quando assumiu a
articulação política não conseguiu honrar acordos porque o governo não lhe dava
condições.
No fim, diz
que "passados estes momentos críticos" tem certeza de que o país terá
tranquilidade para crescer e consolidar conquistas sociais. E arremata:
"Sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB hoje, e não terá
amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção".
Veja a carta
na íntegra publicada pelo blog do Moreno:
EXCLUSIVO:
CARTA DE TEMER A DILMA
POR JORGE
BASTOS MORENO07/12/2015 22:56
São Paulo,
07 de Dezembro de 2.015.
Senhora
Presidente,
"Verba
volant, scripta manent".
Por isso lhe
escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes
últimos dias
e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio.
Esta é uma
carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há
muito tempo.
Desde logo
lhe digo que não é preciso alardear publicamente a
necessidade
da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos.
Lealdade
institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal. Sei quais
são as
funções do Vice. À minha natural discrição conectei aquela derivada
daquele
dispositivo constitucional.
Entretanto,
sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora
e do seu
entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível
com o que
fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo.
Basta
ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança.
E só o
fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.
Tenho
mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio
político que
tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no
partido.
Isso tudo
não gerou confiança em mim, Gera desconfiança e
menosprezo
do governo.
Vamos aos
fatos. Exemplifico alguns deles.
1. Passei os
quatro primeiros anos de governo como vice
decorativo.
A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que
tivera no
passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era
chamado para
resolver as votações do PMDB e as crises políticas.
2. Jamais eu
ou o PMDB fomos chamados para discutir
formulações
econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios,
secundários,
subsidiários.
3. A
senhora, no segundo mandato, à última hora, não
renovou o
Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez
belíssimo
trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele
era uma
indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a
registrar
este fato no dia seguinte, ao telefone.
4. No
episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o
Ministério
em razão de muitas "desfeitas", culminando com o que o
governo fez
a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome
com perfil
técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC.
Alardeou-se
a) que fora retaliação a mim; b) que ele saiu porque faz
parte de uma
suposta "conspiração".
5. Quando a
senhora fez um apelo para que eu assumisse a
coordenação
política, no momento em que o governo estava muito
desprestigiado,
atendi e fizemos, eu e o Padilha, aprovar o ajuste fiscal.
Tema difícil
porque dizia respeito aos trabalhadores e aos empresários.
Não
titubeamos. Estava em jogo o país. Quando se aprovou o ajuste,
nada mais do
que fazíamos tinha sequencia no governo. Os acordos
assumidos no
Parlamento não foram cumpridos. Realizamos mais de
60 reuniões
de lideres e bancadas ao longo do tempo solicitando apoio
com a nossa
credibilidade. Fomos obrigados a deixar aquela
coordenação.
6. De
qualquer forma, sou Presidente do PMDB e a senhora
resolveu
ignorar-me chamando o líder Picciani e seu pai para fazer um
acordo sem
nenhuma comunicação ao seu Vice e Presidente do Partido.
Os dois
ministros, sabe a senhora, foram nomeados por ele. E a
senhora não
teve a menor preocupação em eliminar do governo o
Deputado
Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado.
7. Democrata
que sou, converso, sim, senhora Presidente,
com a
oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento.
Aliás, a
primeira medida provisória do ajuste foi aprovada graças aos 8
(oito) votos
do DEM, 6 (seis) do PSB e 3 do PV, recordando que foi
aprovado por
apenas 22 votos. Sou criticado por isso, numa visão
equivocada
do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas
oportunidades
ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio
resolveu
difundir e criticar.
8. Recordo,
ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião
de duas
horas com o Vice Presidente Joe Biden - com quem construí
boa amizade
- sem convidar-me o que gerou em seus assessores a
pergunta: o
que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente
dos Estados
Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio
da
"espionagem" americana, quando as conversar começaram a ser
retomadas, a
senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar
com o Vice
Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado
absoluta
falta de confiança;
9. Mais
recentemente, conversa nossa (das duas maiores
autoridades
do país) foi divulgada e de maneira inverídica sem nenhuma
conexão com
o teor da conversa.
10. Até o
programa "Uma Ponte para o Futuro",
aplaudido
pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para
recuperar a
economia e resgatar a confiança foi tido como manobra
desleal.
11. PMDB tem
ciência de que o governo busca
promover a
sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso.
A senhora
sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter
cauteloso
silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade
partidária.
Passados
estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá
tranquilidade
para crescer e consolidar as conquistas sociais.
Finalmente,
sei que a senhora não tem confiança em mim e no
PMDB, hoje,
e não terá amanhã.
Lamento, mas
esta é a minha convicção.
Respeitosamente,
\ L TEMER
A Sua
Excelência a Senhora
Doutora
DILMA ROUSSEFF
DO.
Presidente da República do Brasil
Palácio do
Planalto
Brasília,
D.F.


Nenhum comentário:
Postar um comentário