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quarta-feira, 9 de março de 2016

ABARÉ: VÍCIOS E CONTRADIÇÕES


A fraude eleitoral existe no Brasil desde a proclamação da República. Com a extinção da Monarquia, surgiu o controle do voto pelos “coronéis”, assim entendidos os fazendeiros, latifundiários e chefes políticos, que gozavam de grande prestígio em seus municípios.

O título “coronel”, portanto, vem dos grandes proprietários de terra, que herdavam do Império a condição de comandantes da Guarda Nacional, mesmo que nada comandassem. Durante mais de um século, havia um regimento dela, embora precário, em cada um dos municípios brasileiros. E a palavra “coronel” passou a ser sinônimo de poder, liderança e respeito.

Nessa época surgiu o chamado “bico de pena”, controle pelo qual os chefes políticos locais adulteravam as atas das mesas eleitorais, que apuravam os votos, ajustando-as às suas vontades e proclamando eleitos os seus protegidos.

Outro aliado do poder dos “coronéis” era o “voto de cabresto”. Significava que o eleitor obedecia inquestionavelmente às ordens dos chefes políticos, votando nos candidatos que eles indicavam. Convenhamos, não mudou muito.

Estranhamente, os mortos também “votavam”, em muitas situações. Os chefes políticos preenchiam e inseriam nas urnas cédulas em nome de pessoas falecidas, para garantirem a vitória de seus pupilos sobre os adversários. Há um ditado no meu sempre querido Nordeste, segundo o qual, “o cemitério é a mais antiga seção eleitoral”. Como se vê, os “coronéis” eram criativos, como são hoje seus similares.

Com a evolução do sistema eleitoral, essas práticas diminuíram, mas persistiram outras, igualmente abomináveis. Estão aí, permeando campanhas eleitoras, a exemplo da distribuição de afagos materiais e recompensa financeira que políticos inescrupulosos oferecem a eleitores pouco conscientes, em troca de votos. A ilegalidade da prática parece não intimidá-los.

Abaré é um município baiano relativamente novo. A sede debruça-se à margem direita do Rio São Francisco sob as bênçãos de Santo Antonio, seu padroeiro. Emancipou-se em 1962, salvo engano e progrediu até acima da média, relativamente aos seus vizinhos, mas vive às voltas com práticas políticas ultrapassadas, segundo se depreende do noticiário. O município mantém vícios e contradições incompatíveis com seu crescimento, o que depõe contra algumas lideranças políticas locais.

A apreciação de uma representação eleitoral pela Justiça, no segundo semestre de 2015, resultou no afastamento do prefeito e sua vice-prefeita, acusados de distribuição de cestas básicas na zona rural do município, durante a campanha eleitoral de 2012, com o suposto intuito de angariar votos. Por força de medida liminar, como é praxe, ambos reassumiram seus cargos, mas o processo seguiu os trâmites normais, segundo as normas processuais.

Agora, também segundo o noticiário, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia cassou os diplomas de Suas Excelências, embora, em tese, a decisão ainda possa ser atacada em sede de recurso.

Segmentos da população de Abaré aduzem que esse quiproquó das cestas básicas teve a participação moral do Dr. Delísio Oliveira da Silva, ex-prefeito do município e uma espécie de “coronel” local. Dr. Delísio mantém inegável ascendência política sobre o prefeito cassado. Trata-se de um líder político com acentuada respeitabilidade e mestre em fazer engendragens no contexto político-administrativo de Abaré. Não gosta de ser chamado de “coronel”, mas a alcunha até que lhe caiu bem.

Dr. Delísio Oliveira é frio como asa de avião, astuto e estrategista. Certamente vai longe em sua tumultuada carreira política. Com ou sem entraves judiciais, com ou sem distribuição de cestas básicas. Mas esta situação atual acaba por vergar a moral dos líderes envolvidos.


araujo-costa@uol.com.br
TEXTO DE WALTER ARAÚJO COSTA


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